
CÂNCER DE
COLO DO ÚTERO
O câncer de colo do útero é uma doença que se desenvolve de forma progressiva e, em muitos casos, silenciosa nas fases iniciais. Embora a infecção persistente pelo HPV esteja relacionada ao seu surgimento, o comportamento da doença envolve múltiplos fatores biológicos e sociais.
Entre os principais subtipos estão o carcinoma espinocelular, que corresponde à maioria dos casos, e o adenocarcinoma, além de formas menos frequentes, como tumores adenoescamosos e neuroendócrinos.
O perfil epidemiológico mostra maior impacto em mulheres em idade adulta, especialmente quando há barreiras no acesso ao rastreamento e ao cuidado contínuo, o que contribui para diagnósticos em estágios mais avançados.
Do ponto de vista clínico, o câncer do colo do útero pode permanecer assintomático por longos períodos. Quando os sintomas surgem, geralmente indicam doença mais avançada. Os sintomas comuns incluem sangramento vaginal fora do período menstrual ou após relações sexuais, corrimento persistente, dor pélvica e desconforto durante a atividade sexual. Em estágios mais avançados, podem ocorrer alterações urinárias ou intestinais e dor lombar. Esses sintomas não são exclusivos da doença, mas devem sempre motivar investigação médica adequada.
O diagnóstico envolve diferentes etapas. O rastreamento por citologia oncótica e testes para HPV permite identificar alterações celulares antes do desenvolvimento do câncer invasivo. Quando há suspeita clínica ou alterações nos exames, a colposcopia e a biópsia são fundamentais para confirmação diagnóstica. Após o diagnóstico, exames de imagem auxiliam no estadiamento, avaliando a extensão do tumor e a presença de comprometimento de estruturas próximas ou à distância. Esse processo é essencial para definir a estratégia terapêutica mais adequada.
O tratamento varia conforme o estágio da doença, o tipo histológico e as características individuais de cada mulher. Nos estágios iniciais, a cirurgia pode ser uma opção. Em quadros localmente avançados, a combinação de radioterapia externa, quimioterapia e braquiterapia (modalidade de radioterapia interna que permite a aplicação direta da radiação na região do tumor) é frequentemente indicada. Em cenários específicos, terapias sistêmicas, incluindo imunoterapia e terapias-alvo, também podem ser consideradas.

Estatística
No Brasil, são estimados 19 mil novos casos por ano de câncer do colo do útero no triênio 2026–2028. Em escala global, o HPV causou uma estimativa de 620 mil casos de câncer em mulheres e 70 mil casos de câncer em homens em 2019. O câncer do colo do útero é o tipo mais comum de câncer causado pelo HPV, enquanto outros cânceres menos comuns em homens e mulheres incluem câncer anal, vulvar, vaginal, de boca/garganta e peniano. Em 2022, o câncer do colo do útero foi a quarta principal causa de câncer e de mortes por câncer em mulheres, com cerca de 660 mil novos casos e aproximadamente 350 mil mortes. Os cânceres do colo do útero representam mais de 90% dos cânceres relacionados ao HPV em mulheres.
Causas
O principal fator de risco relacionado ao câncer do colo do útero é a infecção pelo HPV. Há mais de 100 tipos de HPV, e 12 são considerados de alto risco, com destaque para HPV 16 e HPV 18. Os tipos de alto risco associados a câncer incluem 16, 18, 31, 33, 35, 39, 45, 51, 52, 56, 58 e 59. Os tipos de baixo risco, associados a verrugas genitais, incluem 6, 11, 40, 42, 43, 44, 54, 61, 70, 72 e 81. Além do HPV, fatores como tabagismo, uso prolongado de anticoncepcionais e imunossupressão aumentam o risco. A prevalência do vírus pode ser maior em alguns grupos e contextos, como mulheres vivendo com HIV, homens que fazem sexo com homens, indivíduos imunocomprometidos, pessoas com coinfecção por outras infecções sexualmente transmissíveis, pessoas em uso de medicamentos imunossupressores e crianças que passaram por abuso sexual. Esses elementos reforçam a importância de prevenção, rastreamento e políticas públicas estruturadas.
Sintomas
A infecção por HPV costuma ser silenciosa e, na maioria das vezes, não provoca sinais ou sintomas. O sistema imunológico geralmente elimina o vírus em um ou dois anos, sem efeitos duradouros. Em alguns casos, podem surgir verrugas genitais na vagina, no pênis ou no ânus e, mais raramente, na garganta. Essas lesões podem causar dor, coceira, sangramento e aumento de gânglios. Quando a infecção por HPV persiste, pode provocar alterações nas células do colo do útero. Essas mudanças podem evoluir para lesões precursoras e, ao longo do tempo, para câncer se não forem diagnosticadas e tratadas. O desenvolvimento do câncer do colo do útero costuma ser lento, podendo levar de 15 a 20 anos após a infecção persistente. As alterações iniciais e os pré-cânceres raramente causam sintomas, o que reforça a importância do rastreamento regular. Em muitos casos, a doença só apresenta sinais quando já está mais avançada. Entre os sintomas que podem surgir estão sangramento vaginal fora do período menstrual ou após relações sexuais, corrimento com odor desagradável, secreção vaginal anormal, dor pélvica que pode piorar após a relação sexual e desconforto urinário recorrente. Diante de qualquer um desses sinais, é importante procurar avaliação médica.
Exames diagnósticos
O Papanicolau é uma das principais ferramentas de rastreamento do câncer do colo do útero. O exame consiste na coleta de células com auxílio de um espéculo, permitindo identificar alterações ainda em fases iniciais, antes da evolução para câncer. Apesar de simples e disponível no SUS, ainda existem receios relacionados ao desconforto, experiências negativas anteriores e falta de informação. Ainda assim, é por meio do preventivo que se tornam possíveis o diagnóstico precoce, tratamentos menos agressivos e maiores chances de cura. O exame deve ser realizado entre 25 e 64 anos e, após dois resultados anuais negativos, repetido a cada três anos. Além da citologia, a pesquisa do genoma do HPV na secreção vaginal permite identificar a presença do vírus e seus subtipos, com destaque para os tipos 16 e 18, mais associados ao câncer. Desde 2025, o teste molecular de HPV-DNA passou a integrar a rede pública de saúde, ampliando a capacidade de detectar subtipos de alto risco e possibilitar acompanhamento mais próximo e intervenções precoces. O exame ginecológico vai além da coleta do preventivo e nenhum teste substitui o acompanhamento regular com um profissional de saúde. O câncer do colo do útero é o único câncer causado por HPV com testes de rastreamento disponíveis, cujo objetivo é identificar alterações pré-cancerosas antes que se tornem doença invasiva.
Prevenção
O uso de preservativo nas relações sexuais reduz o risco de infecção por HPV, mas não oferece proteção total, já que o vírus pode estar presente em áreas da pele não cobertas. As estratégias mais eficazes para prevenir o câncer do colo do útero são a vacinação contra o HPV e a realização regular de exames preventivos, como o Papanicolau e o teste de DNA do HPV. A vacinação é a principal forma de evitar a infecção pelo vírus e os cânceres associados. O ideal é que ocorra antes da exposição ao HPV, podendo envolver uma ou duas doses, enquanto pessoas com imunidade reduzida podem precisar de esquemas com duas ou três aplicações. Já o rastreamento permite identificar lesões precursoras e tratá-las antes que evoluam para câncer. Outras medidas incluem o uso consistente de preservativos, a circuncisão masculina voluntária e evitar ou interromper o tabagismo, fator associado à persistência da infecção. O teste de HPV pode ser realizado a cada 5 a 10 anos a partir dos 30 anos e, para mulheres vivendo com HIV, a cada 3 anos a partir dos 25. Como lesões precursoras raramente causam sintomas, o rastreamento regular é essencial para o diagnóstico precoce. A meta global de eliminação do câncer do colo do útero envolve ampliar cobertura vacinal, fortalecer rastreamento com testes de alto desempenho e garantir acesso ao tratamento adequado. A estratégia estabelece como objetivos: alta cobertura de vacinação até a adolescência, rastreamento em idades-chave e tratamento para a maioria das mulheres identificadas com doença cervical, incluindo lesões precursoras e câncer invasivo.
Tratamento
O tratamento do câncer do colo do útero depende do estágio da doença e das características individuais de cada mulher, como idade, presença de comorbidades e desejo reprodutivo. As abordagens incluem eletrocirurgia, cirurgia, radioterapia e tratamentos sistêmicos, como quimioterapia, imunoterapia e terapias-alvo. A braquiterapia, modalidade de radioterapia interna que posiciona a fonte de radiação diretamente próxima ao tumor, permite concentrar doses mais altas na área afetada e reduzir a exposição de tecidos saudáveis. Não existe tratamento específico para eliminar o HPV, mas há opções eficazes para tratar verrugas genitais, lesões precursoras e o câncer já estabelecido. Lesões não cancerosas podem ser removidas por técnicas de ablação, congelamento, aquecimento ou cirurgia. Quando o diagnóstico do câncer ocorre precocemente, as chances de tratamento menos agressivo e melhores resultados clínicos aumentam, reforçando a importância do início rápido da terapia após a confirmação. O cuidado do câncer invasivo exige encaminhamento adequado e atuação de uma equipe multidisciplinar. Antes da definição do tratamento, são necessários diagnóstico e estadiamento completos, com avaliação histológica, análise patológica e exames de imagem. As decisões terapêuticas devem seguir diretrizes nacionais e considerar suporte integral à paciente, incluindo acompanhamento psicológico, físico, espiritual e cuidados paliativos. Com a ampliação do rastreamento, cresce também a necessidade de fortalecer redes de encaminhamento e acesso ao tratamento para atender populações anteriormente não acompanhadas.
